16 janeiro 2008

Uma visão mais ampla

São tão poucas as vezes que um editor ou alguém responsável por uma editora nacional se manifesta oficialmente sobre as diretrizes e os planos da empresa que dirige. Por isso, quando acontece, parece até um grande evento.

Um bom exemplo é a nota que o Sidão fez hoje sobre a situação dos títulos da Conrad, abrindo espaço para o Rogério de Campos, diretor da editora, se manifestar.

Há algum tempo os leitores andavam preocupados com a falta de periodicidade dos títulos da editora. Isso, somado ao fato de nunca serem divulgadas as tiragens e a vendagem das revistas, começa a gerar diversos comentários e suposições sobre possíveis cancelamentos e, até, sobre a saúde financeira da editora.

Assim, é muito importante alguém que representa a editora se manifestar, explicar a situação, dizer os planos. E fica mais interessante ainda, quando essa pessoa faz como o Rogério e fala sobre a situação do mercado.

Ele comenta, aliás, algo que sempre me preocupou (até já fiz um post sobre isso), que é a quantidade de títulos no mercado. A Conrad tem títulos que são garantia de lucro certo, como Calvin e Sandman, mas não pode lançar um livro novo a cada mês, pois os leitores não agüentam comprar.

Dessa forma, precisa fazer um planejamento maior e buscar um equilíbrio entre as necessidades financeiras da editora e o poder aquisitivo do leitor.

Existe um dado interessante no texto que precisaria ser estudado mais a fundo. Ele fala que o mercado sofrerá uma grande "mexida" com a descoberta dos quadrinhos pelo público consumidor de livros.

É certo que os quadrinhos estando em livrarias sempre acabarão atraindo um ou outro freqüentador assíduo, porém, esse leitor de livros está pronto para uma HQ? Ele sabe que quadrinhos não são só coisas de criança? Conhece os diferentes títulos, gêneros e demais opções que tem na área?

Um cuidado que as editoras precisam ter é que não basta mudar o formato do seus títulos e colocá-los em livrarias. Está mais do que na hora de se pensar em formar um novo público ou se correrá o risco de um auto-engano.

Enquanto não se tomar medidas mais profissionais de divulgação, as editoras não estarão criando um novo público nas livrarias, e sim migrando as pessoas que já compravam nas bancas.

13 comentários:

Amalio disse...

Bem lembrado Zé! A questão é, o leitor habitual de livros, poderia virar um fã de HQ's, conhecendo as obras por iniciativa própria e "acidentalmente"? Na minha opinião as editoras é que deveriam pensar estratégias para que esses leitores conhecessem HQ's. Eu já emprestei muitas das minhas HQ's para pessoas que habitualmente lêem muitos livros e a maioria delas simplesmente não consegue se identificar com a linguagem, ou seja, não consegue sentir atração pela HQ. E olha que eu nunca empresto nada de super-heróis, somente coisas como Maus, Sandman, etc. Eu trabalho na Universidade de Franca que tem 1.000 funcionários e 12.000 alunos. Nos seis anos que trabalho aqui, conheci umas 15 pessoas que gostam de HQ e umas 5 que são colecionadores. Obviamente que a região é muito diferente de São Paulo, por exemplo, aqui só chega o feijão com arroz, álbuns mais sofisticados só em Ribeirão Preto mesmo. Fazendo uma comparação exdrúxula, é a mesma coisa que esperar que um cara que usou PC a vida inteira, comece a usar Mac somente porque viu na loja e achou bonito.

Sidney Gusman disse...

Leitor de quadrinhos se forma na banca.

Na livraria serão incorporados um ou outro, mas o processo de formação de leitores precisa continuar nas bancas.

Amalio disse...

Sidney, falou pouco, mas falou tudo!

Pedro disse...

Se o Sidão está certo, a França tem menos leitores de quadrinhos que o Brasil...

Aliás, Asterix não é vendido no Brasil. Nem Tintim. Afinal, eles só foram publicados em livraria desde sua introdução no país e, portanto, não têm leitores, né? Ou será que são lidos pelos leitores de super-heróis?

O mesmo para os leitores de mangá nos EUA.

O Brasil é obcecado pelo modelo de publicação italiano de quadrinhos de "tudo nas bancas, nada na livraria, HQs são publicações baratas e descartáveis sem grande mérito artístico". Modelo que está em crise na própria Itália!

Nos EUA é difícil encontrar quadrinhos em bancas (não se esqueçam que super-heróis vendem principalmente nas comic shops) e as livrarias vendem MONTANHAS de mangás. Na França ainda é possível se achar quadrinhos maior parte das bancas, mas eles não vendem uma fração das vendas de livraria. O mais vendido não chega a 10% das vendas de um álbum novo de Asterix ou Titeuf!

Até no Japão as vendas em banca estão em queda e as de livraria sobem! No Japão!!! Pátria-mãs das antologias gigantes baratas de banca! Lá faz três anos que as vendas de livrarias já ultrapassaram as de banca.

A tendência é mundial. Já disse e insisto. É o mesmo fenômeno que matou a literatura de folhetim. A História se repete, mas ninguém parece ver!

Hunter (Pedro Bouça)

Conrad disse...

Engraçado, justamente na hora que a literatura volta para banca, com edições "baratinhas", "de bolso" e que tais, os quadrinhos fazem o caminho inverso...
Eu sou menos apocalíptico que o Hunter, acho que morrer o quadrinho-folhetim não vai, mas que issoo tudo muda as regras do jogo isso muda.
como já disse antes, vou na idéia que o Sidão defende, quadrinhos se forma na banca, seja com encadernados ou mensais... desde que seja acessível tanto financeiramente, quando no "conteúdo" (não que isso invalide quadrinhos mais densos, experimentais ou até com vasta cronologia, só que cada coisa a seu tempo)... mas, tenho que ir além, só no estado de S. Paulo temos milhares(!) de escolas, e poucas delas tem uma gibiteca!!! Isso é um crime!!! Talvez falte um lobbyzinho das editoras junto aos governos, também junto aos professores, para professar a grande fé nas HQs!

Abraços,
Conrad

Sidney Gusman disse...

Hunter, evidentemente, falo do mercado BRA-SI-LEI-RO. Não preciso desenhar, né?

Ou você quer comparar o nível cultural médio de Japão, França e outros países com o nosso? Ou, quem sabe, o número de livrarias? Ou o poder aquisitivo de cada povo?

E aqui estamos longe de "nada na livraria". Pelo contrário. Esse é um caminho irreversível - e bom. Mas temos que remar muito para termos um cenário como este apresentado nos países de primeiro mundo.

Enquanto isso não ocorre, vida longa às bancas. E às livrarias também.

José Aparecido disse...

Desculpe a pressa mas como um editor da Conrad está aí participando dos comentários poderia, ele mesmo ou algum outro colaborador, me esclarecer uma dúvida?Trata-se da série Monster, por sinal muito boa, eu comprei os 8 primeiros volumes depois parei porque demorava pra sair. Podem me dizer qual a última em banca e até onde vai a série?Mais uma vez minhas desculpas pela pressa porque de repente as minhas dúvidas estejam no texto, mas a vida tá corrida...
Abraços
Zerramos

Pedro Costa disse...

Com relação a bolha comentada pelo Oliboni, acho que se vc tiver a grande quantidade de lançamentos (epsecias como encadernados) nas livrarias daria por um bom tempo não correria muito o risco de explodir. Mas nas bancas acho que não tem como aumentar muito mais.

Com relação a Conrad, acho que depois de meses sem nunhuma notícia sobre o q estava acontecendo, se os títulos iriam parar ou não, precisou o Universo HQ procurar o editores da Conrad (que eu já tinha tentado achar algum contato mas no site da Conrad só existe os SAC comum no qual nunca sabem de nada) para eles explicarem o que está ocorrendo. se eles tem estas infomrações poderiam demonstrar mais um pouco de respeito pelo leitor e divulgá-las através do próprio site ou alguma newsletter.

Victor disse...

Pois é, na minha humilde opinião, fica difícil, muito difícil, comparar Brasil e França. As diferenças são abissais, principalmente em termos culturais. Quadrinhos é uma coisa curiosa, cada país tem sua, digamos, assim, tradição. A única coisa comum entre as diversas nações do mundo é que em todo lugar mangá vende pacas, ehehe.
Mas, quanto ao comentário do editor da Conrad, sobre a perspectiva de que o leitor brasileiro de livros descubra os quadrinhos, me cabe fazer uma pergunta: que leitor brasileiro de livros??? Onde se acha um dessa 'raça em extinção', de mente aberta, interessado em novidades??? O leitor que compra "O Segredo", "O Código da Vinci", qualquer porquera do Paulo Coelho e outras coisas do gênero? Acho difícil. Mesmo morando em um Estado onde o nível de leitura é dos mais altos do Brasil, eu conto nos dedos as pessoas que conheço que compram livros com freqüência... quem dirá vencerem os preconceitos e comprarem quadrinhos.
Ah, ainda aposto na banca, embora eu não compre há anos em banca. É uma pena, por exemplo, que algo tão 'bancável' quanto Invencível tenha saído em encadernado. Essa obra é talvez uma das poucas existente no mercado hoje capaz de atrair novos leitores.
Mas sabem, eu não sou especialista de nada, estou só opinando...

tales disse...

eu não sou especialista nem nada, mas acho que a melhor maneira para as HQ's ganharem novos leitores seria fazer o adolescente(ou criança) leitor de mangás passar a ler HQ's também. afinal eu comecei assim, comprava só mangá, aí comecei a ler homem-aranha(por causa dos filmes, tenho que confessar), e hj em dia compro no máximo 1 ou 2 mangás, compro muito mais HQ's.
aliás com esses filmes de super-heróis sendo feitos em hollwood, acho que tende a aumentar o número de leitores desse gênero.

Conrad disse...

É impressão minha, ou vocês estão em confundindo com algum editor da "Conrad Editora"?
Esse aí é meu nome, culpa de minha mãe que gostava do nome, nunca trabalhei, nem sequer passei perto de uma editoria... apesar de querer, afinal esse deve ser sonho de 3 em cada 5 fãs.

Abraços!
Conrad (o leitor, não o(a) editor(a))

Victor disse...

Conrad, eu pelo menos não estava confundingo não. Quando me referi ao editor da Conrad ter falado sobre os leitores de livros descobrirem os quadrinhos, estava aludindo ao Rogério de Campos, diretor da Conrad Editora.
Abraço!
Tales, que barato cara! É legal ver o testemunho de alguém que a recém descobriu quadrinhos! To cansado de ver 'coroa' como eu, que ainda se lembra da época em que comprara o cabeça-de-teia pela RGE, eheheheh

Rafael Henrique disse...

Concordo com o Sidney Gusman.
O processo de formação de leitores se consolida nas bancas, pelo menos no Brasil.
Primeiramente, revistas em quadrinhos são lidas, majoritariamente, por adultos ou adolescentes/crianças? Para mim parece óbvio que é a segunda opção. Sendo assim, que adolescente / criança tem 100 reais por mês para comprar 2 (DOIS! Somente dois!) encadernados? Bem, eu diria que poucos.
Agora no caso de um quadrinho de banca é diferente. Além do preço ser mais favorável, há a possiblidade de se conhecer mais títulos e até "prová-los" sem precisar pagar 40 reais pela capa dura.
Digo isso porque comecei assim. Hoje compro de livrarias e faz meio século que não compro nada em bancas, mas o processo de formação, de amadurecimento do leitor, no Brasil, ocorre nas bancas.
Nenhum jovem começará comprando algo de 50 reais só para "conhecer". A valorização dos encadernados, da livraria, das boas edições e dos clássicos passa pela banca.
Exemplificando: Comprava Dragon Ball (com as intervenções do Sidão), Sakura, Marvel/DC e outros americanos. Depois passei para Vagabond, Asilo Arkham (Grant Morrison), Origem, entre outras coisas. Hoje compro UM quadrinho periódico somente e, de vez em quando, algum encadernado que depois de experimentar vários quadrinhos, ler muito UniversoHQ (=P), ver muitos elogios, entre outras coisas, considero como leitura obrigatória.
Creio que a maioria dos leitores assim se formam. Raríssimos são os casos onde o caminho é invertido. Isso acontece geralmente quando se indica um quadrinho para alguém que tenha interesse no assunto que o mesmo trata, ouviu falar bem ou apenas se interesse em provar mesmo. Porém, como nosso amigo amalio disse, não se conhece muitas pessoas que tal técnica funcione.

Concluindo: Banca! Banca! Banca!
Pós-conclusão: Livraria!!!
=D

Acho que não escrevi de forma muito clara mas espero que tenham entendido.

Valeu!