17 janeiro 2008

Melhores super-heróis do ano

O conceito de super-herói, o leitor há de convir comigo, é um troço mais elástico que o ranho ressecado do Homem-Borracha. Eu costumo dizer (e escrever) que as HQs de super-herói são um gênero, mas confesso aqui que é uma afirmação sem muita convicção. Tenho pra mim que, se for pra valer, o gênero dessas histórias são um híbrido de aventura e ficção científica com doses de uns outros gêneros. Afinal, o shortinho por fora da calça tem cacife de definir um gênero por si só? Sei lá.

O fato é que fiquei meio pasmo com o resultado do ranking da revista Mundo dos Super-Heróis, especializada em superpoderosos uniformizados. Segundo o Blog dos Quadrinhos, do Paulo Ramos, que publicou o resultado em primeira mão, o melhor roteirista brasileiro de super-heróis é o Wander Antunes.

Sim, o Wander, veja só, que desde a revista Canalha considero um dos grandes roteiristas deste país. Mas que eu jamais veria como um autor de super-heróis.

Tudo bem que super-heróis tem lá, como eu ia dizendo, a sua elasticidade de ranho de Homem-Borracha. E até aí tudo bem: as imagens que ilustram esse post são, propositalmente, TODA a edição final de Promethea, dos surtados Alan Moore e JH Williams III. Pra ser lida, a revista tem que ser desgrampeada, desmontada e transformada em um pôster a ser lido em ordem aleatória. Incluí-as pra relembrar que meu conceito de super-herói é tão amplo que até essa viagem tá no páreo.

Mas ver O corno que sabia demais chega até a me entristecer. E por puro egoísmo, admito. Porque eu, bem como outros integrantes da equipe do Universo HQ, fomos gentilmente chamados para a eleição.

Eu queria ter votado no Wander, principalmente porque deixei a categoria em branco. Abri mão do voto por ter convicção de que ninguém se destacou diante dos demais -- e que escolher um seria injusto. Mas o Wander se destacou, sim. Fez um dos grandes álbuns do ano. Só que não é de super-herói, e sim uma crônica de costumes, bem aos moldes de Nelson Rodrigues. Não tinha ninguém com superpoderes nem trajando fantasias em suas páginas

Em tese, a cédula era clara: "A votação é exclusiva para trabalhos com tema de HQs de super-heróis e de aventura. Não vale quadrinhos de humor, terror, mangá ou outros". Portanto, O corno nem poderia ser votado. Muito menos eleito. Mas foi, justamente porque o gênero é moldável

Se linhas próximas aos super-heróis estavam no páreo, meus votos teriam sido bem diferentes. A detetive Júlia, aqui rebatizada J. Kendall, teria levado alguma coisa. Eu também teria votado no John Constantine com mais ênfase. E o prêmio de adaptação, que também deixei em branco, teria ido pro longa de Persépolis, da Marjane Satrapi.

Afinal de contas, qual é o limite de um gênero que já nasce híbrido, forjado?

9 comentários:

Guilherme Kroll disse...

Eu votei no Wander. Depois de conversar com o Nasi, realmente concordo que o autor não escrevia super-heróis, mas sim, um anti-herói. Confesso que agora reveria meu voto. Mas, ainda assim, acho que ele merece o reconhecimento por ter publicado dois álbuns em 2007.

Bone disse...

Eu concordo com vc, Nasi. O Wander pode ter sido um bom destaque do ano, mas se as eleições são claras quanto ao gênero ser restrito a "super-heróis" você agiu certo. Acho que a Revista dos Super-Heróis tem que rever seus conceitos, para não perder a credibilidade.

Sidney Gusman disse...

Perfeito, Nasi. Adoro o trabalho do Wander, mas creio que ele mesmo se sentirah (sorry, estou no telefone) deslocado. O pessoal da Mundo vacilou.

Manoel disse...

Olá, Nasi.

Acho que houve um problema de interpretação (talvez nosso ou dos jurados, não sei). Com certeza, "O Corno que Sabia Demais" não é sobre super-heróis. No critério mandado por e-mail aos jurados, estava escrito o seguinte:

"> A votação é exclusiva para trabalhos com tema de HQs de super-heróis e de aventura. Não vale quadrinhos de humor, terror, mangá ou outros”

Aceitamos os votos por considerar "O Corno que Sabia Demais" uma aventura. Tentamos deixar o conceito de "aventura" um pouco aberto para ajudar os jurados na hora de escolher trabalhos nacionais. O item Melhor Roteirista é sempre o mais difícil de escolher.

Mas, pelo visto, esses critérios não ficaram claros e precisam de aprimoramento para o ano que vem. Aliás, a Mundo ainda está em aperfeiçoamento constante. Minha idéia é deixar a revista melhor a cada edição e, uma hora dessas, finalmente nos tornarmos mensais.

Essa discussão sobre os limites do termo "super-herói" é muito boa e, volta e meia, me deparo com ela em nossas pautas.

Abs,

Eduardo Nasi disse...

Manoel, meu caro, como eu disse no e-mail que mandei pra você, esse limite entre os gêneros pode até mesmo virar uma pauta. Ainda que a votação possa ser reformulada, a oportunidade para discutir é riquíssima.

Manoel disse...

Tem razão,

Lembro que fiz até um editorial sobre isso na edição 2 se não me engano...

De qualquer maneira, achei muito útil a listagem dos votos de todos os jurados. Assim, mesmo os trabalhos que receberam poucos votos ficam registrados. Eu mesmo não conhecia muitos dos citados e fiquei tentado a lê-los.

Abs,

Sérgio Coutinho disse...

Nasi, sei que é um pouco fora do assunto, mas como não há espaço para comentários no site do Universohq, preciso deixar aqui. Postaram sobre o portal Super HQ hoje. Contudo, quem procurar pelo Google pode encontrar o endereço www.superhq.net, que também tem histórias em quadrinhos e também é nacional, mas não tem ligação com o projeto divulgado. Acho que seria bom divulgar isso. Grande abraço a todos.

Eduardo Nasi disse...

Sérgio,

Só pra pontuar: o Universo HQ não tem espaço para comentários, mas as notícias são assinadas e, nesses casos, o contato com os autores pode ser feito sempre por e-mail.

Franchico disse...

Rapaz, que troço louco essa edição-poster de Promethea. Já tinha ouvido falar mas não tinha visto como era ainda. Alan Moore SEMPRE SURPREENDE. O cara é bruxo mesmo - ou então tem algum tipo de superpoder para criar e inovar conceitos. Só quero ver como a Pixel vai publicar isso por aqui. (Se chegar a fazê-lo, óbvio).