25 setembro 2007

O que estamos lendo... na Europa (2)

Didier Conrad é um dos artistas que estou descobrindo por aqui. Da sua obra, que já é bem grande, li La Piège Malais (A Armadilha Malaia) e os dois volumes de Raj.

Conrad é um importante desenhista e escritor francês que ajudou a revolucionar a revista belga Spirou na década de 1980. Ele nasceu em 1959, em Marselha, na França.

Este artista criou Les Innommables, série que conta as aventuras de três mercenários no Oriente, nas décadas de 1940 e 1950; Bob Marone, paródia da famosa série de quadrinhos Bob Morane (que possui inclusive um desenho animado baseado me suas aventuras). Essasa duas foram em parceria com Yann.

Também fez Donito, um garoto pirata capaz de respirar embaixo d'água; Le Piège Malais (A Armadilha Malaia), premiada aventura de época na Índia nos tempos do Raj; Tatum, paródia de um agente secreto futurista; e desenhou Kid Lukcy e Cotton Kid; La Tigresse Blanche e, mais recentemente, Raj.

Como era de se imaginar, o sujeito já ganhou diversos prêmios, incluindo o Grand Prix de Angoulême, em 1994, por Donito.

Além disso, passou um tempo nos Estados Unidos, trabalhando para a DreamWorks SKG, no desenho O Caminho para El Dorado (The Road to El Dorado).

A Armadilha Malaia foi lançada na década de 1990, em dois álbuns da Dupuis, da coleção Aire Libre, com 48 páginas cada um. A versão que li é o encadernado (um "albão" capa dura que por aqui eles chamam de Intégrale) da série.

O livrão traz uma biografia do autor, sketches e diversos extras bacanas (mas não reimprime as capas originais).

Nesta aventura, o jovem francês Ernest encontra a prostituta Kaliani, na Índia do século 19, numa aventura entre os miseráveis. A história mistura ação, humor e sexo.

A arte do álbum é estilizada e até um pouco caricatural, mas as figuras são agradáveis e bem expressivas, e o colorido é aquarelado e perfeito pro material. Lendo o livro, é fácil de entender por que ganhou um prêmio de melhor álbum do ano, na época em que foi lançado.

Conrad, que curte bastante locais exóticos e cenários históricos, voltaria à Índia na série Raj, em colaboração com Wilbur.

Wilbur é o pseudônimo da francesa Sophie Commenge, que nasceu em 1960, em Saint-Claude, no arquipélago caribenho de Guadalupe (de possessão francesa), e é esposa de Conrad. Esta autora também já escreveu sob o pseudônimo de Lucie, na série Bob Marone, juntamente com Yann e Conrad. Além disso, ajudou nos roteiros de L'Avatar, Tatum e La Piège Malais.

A cor desses álbuns é de Julien Loïs, um trabalho simples e discreto, sem exageros (bem diferente do colorido da Armadilha Malaia), mas muito competente.

Raj - Les disparus de la ville dorée, o primeiro volume da série, é uma história de espionagem e intriga política, que se passa na Índia do século 19, mais precisamente em 1831, quando Alexander Martin, viaja de Londres a Bombaim (cidade que hoje se chama Mumbai) para entrar para o Serviço Político Indiano, cujo papel é ajudar a Companhia das Índias Orientais - a famosa e poderosa East India Company - a desenvolver seus interesses no país.

Basicamente, ele precisa impedir que outros países se estabeleçam na região e ameacem o domínio inglês. Mas os seus chefes não encaram com entusiasmo o idealismo e os princípios morais do jovem.

Alexander Martin lidará com corruptos, estrangeiros e locais, numa trama que envolve o assassinato de Sir Thomas e o desaparecimento de três ingleses. O protagonista terá que decidir se prende o capitão de uma companhia portuguesa, um inocente, acusado dos crimes.

No segundo e último volume, Raj - Un Gentilhomme Oriental, Martin se recusa a acreditar na versão oficial para os desaparecimentos e continua a sua investigação, e a busca por seu amigo, o jornalista David Baltimore, que o leva à pequena ilha de Elephanta, onde aparentemente sopram os ventos da loucura.

Para a série Raj, Conrad mudou o seu traço, um fato muito destacado pela imprensa especializada daqui, indo muito mais para a linha clara. Aliás, Raj tem sido divulgado como uma aventura digna de Tintim, não só pelo traço, mas pelo espírito dos personagens. Esta é uma bela HQ destinada a todas as idades, que traz um pouco do idealismo perdido em muitas histórias modernas, principalmente no mercado norte-americano.

7 comentários:

Pedro disse...

Você já tem o segundo Raj? Ah, que inveja! Esses álbuns levam meses para chegar aqui em Portugal...

Eu ando lendo muito Conrad (Didier, não Joseph!) ultimamente. Este fim de semana mesmo eu peguei a minha integrale de Les Innommables para ler e aquilo é uma verdadeira porrada nas ideias! Nem dá para acreditar que tem 20 anos nas costas. Por que a Animal não publicava iso?!?

Tigresse Blanche acompanha uma das personagens da série, a agente secreta chinesa comunista Alix. Ainda não li nenhum álbum (se Raj demora, essa aí nem deu as caras na terrinha...), mas curti as previews no site da Dargaud.

De La Piège Malais ainda não vi nem a cor, Bob Marone está esgotado há anos... Colecionador sofre!

Mas o que eu quero mesmo é o Raj. Linha clara forever!

Hunter (Pedro Bouça)

Sérgio Codespoti disse...

Hunter, comprei o Raj 2, há poucos dias, o lançamento aconteceu este mês.

Estou planejando comprar os 4 volumes de Tigresse Blanche, mas ainda não vi por aqui o intégrale de Innommables. Nem mesmo nos eventos de HQ, onde encontro muita coisa antiga.

Bob Marone, então nem se fala.

E Miss Endicott? Já chegou por aí? Estou muito tentado a comprar, pois são apenas dois voumes e a crítica está muito boa.

abs

Pedro disse...

Pelo que dizem, o melhor é comprar Les Innommables avulso - e nas edições antigas mesmo! Aparentemente os autores mudam, adicionam e suprimem muita coisa entre uma edição e outra, estilo Tintim/George Lucas. Por exemplo, a primeiríssima aventura (Matricule Triple Zéro) só está disponível em álbum em uma antiga edição de outro álbum (Aventure en jaune).

E ainda estou revoltado que na minha integrale não aparece a sequência que vi online em que se descobre que a rainha pirata Ching Soao tinha uma série de tatuagens pelo corpo pintadas em uma tinta especial que só aparece quando ela tem "sete vezes sete orgasmos"! Pô, como puderam deixar essa de fora?!? ;-)

O integrale está disponível no mercado. Eu encomendei em uma FNAC de Lisboa há poucos meses. Mas eu recomendaria catar os álbuns mesmo!

Miss Endicott ainda não pintou por aqui, mas todo mundo - dBD, Bo-Doi, acho que até a seção de críticas da Suprême Dimension - andou elogiando. Estou curioso!

Hunter (Pedro Bouça)

Victor disse...

Ei, parem de nos provocar!!! (hehehe, brincadeira).

Pedro, se você lamenta que essas obras demoram para chegar em Portugal, imagine o que diremos nós aqui no Brasil.

Sérgio, achei FANTÁSTICA a idéia de nos informar sobre o que está rolando na Europa. Contratulações! Sou da turma que baba pelos quadrinhos europeus e, quando visitei a loja da Album (http://www.album.fr/) em Paris, quase tive uma síncope: precisei ser ser arrastado para fora da antes de gastar todos os meus parcos euros e virar mendigo nas ruas da cidade.

É simplesmente uma tragédia ter tão pouco material europeu publicado aqui no Brasil. Mas pelo menos temos um consolo: nós não temos acesso por dificuldades na nossa economia, já os americanos não tem acesso por mau gosto mesmo (só agora tem uma editorasinha publicando por lá as primeiras histórias do Thorgal).

Há alguma alternativa viável de comprar-se esses álbuns? Eu compro comics pela Amazon americana, mas algum brazuca que estiver me lendo usa a Amazon francesa, ou outra forma para trazer BDs à terra tupiniquim?

Victor

Pedro disse...

Victor,

Ao que me parece a Amazon francesa não é seria a melhor opção para comprar material francês. Eu recomendaria a Decitre (www.decitre.com), que tem o mesmo material e despesas postais mais brandas, especialmente em grandes compras. É lá onde eu comprava quando estava no Brasil!

Alternativamente, você pode tentar fazer o mesmo que eu faço aqui em Portugal: Ir até uma loja FNAC (assumindo que você more em uma cidade onde exista uma) e encomendar diretamente. Você evita a despesa postal (embora eu não sei se o "euro-livro" da FNAC brasileira não é ainda mais alto...) e não tem de se preocupar com valor de encomenda, alfândega, correios e outras burocracias. Pode é levar MESES para chegar, aqui leva e Portugal fica pertinho da França...

Quanto a não publicarem franco-belga no Brasil por fatores econômicos, eu diria que isso era verdade quando só saía HQs em formatinho na banca. Hoje as livrarias brasileiras andam recheadas de material, muito dele bem caro. Se é viável publicar um Red Rocket 7 a 60 reais em livrarias, não vejo por que motivo um (digamos) Raj (capa mole, cada edição contendo duas francesas) a uns 40 ou 50 não seria.

Hunter (Pedro Bouça)

Sérgio Codespoti disse...

Victor,

Acho legal que o pessoal está curtindo estes posts. Quem sabe as editoras se inspiram não é mesmo?

Quanto à compra de material europeu, o Hunter deu algumas dicas interessantes, mas eu posso sugerir ainda outros dois caminhos: o sistema de compra direto da Livraria Cultura, que funciona da mesma maneira que a FNAC, mas tenho impressão que é mais eficiente (quando eles tem o álbum e o fornecedor); e a Livraria Francesa, em São Paulo (É meio caro, mas de vez em quando é possivel achar coisas boas por lá).

Fora isso só mesmo pagando um frete pesado via Amazon. fr, Fnac.fr, ou sites similares.

abs

Victor disse...

Valeram as dicas. Vou tentar pela Cultura de início, já que tem uma próximo de casa!