11 outubro 2007

Inpiração, homenagem ou plágio?

Sobre uma série desconecta de eventos e dois artigos interessantes.

Fato banal 1 - Em setembro deste ano, a Marvel lançou New X-Men # 42.

Fato banal 2 - Recentemente aconteceu um debate em Nova York, promovido pela revista The New Yorker, com Tim Kring (do seriado Heroes), Mike Mignola (pai do Hellboy), Grant Morrison (de Invisíveis e tantas outras coisas) e o escritor Jonathan Lethem.

Fato banal 3 - Escrevi um artigo sobre a volta de El Cazador, do Chuck Dixon.

E qual a relação destes três fatos com o tema do post? Primeiro vou explicar um pouco os fatos.

A capa de New X-Men # 42, de Skott Young, foi inspirada (ou é uma homenagem? Ou quem sabe plágio?) na pintura Shiner, do famoso ilustrador Norman Rockwell (literalmente um parênteses: Rockwell foi um dos maiores ilustradores do século 20 e ficou famoso com suas capas para o Saturday Evening Post).

Normalmente este tipo de coisa é relatado em inúmeros blogs, com pontos a favor ou contra. Confesso que sobre esta revista não vi menção recente.

Não conheço muita coisa do Jonathan Lethem, mas sei que ele escreveu um livro premiado, Fortress of Solitude, sobre a amizade entre uns garotos que se tornam super-heróis. Não é um livro sobre quadrinhos, é mais um relato sobre amizade, vivida num bairro de Nova York, mas existem algumas metáforas relativas aos quadrinhos.

Lethem também é o atual escritor de Omega The Unknown, outro título da Marvel, criado por Steve Gerber, aquele do Howard The Duck.

Gerber desceu a lenha no Lethem por estar assumindo o título (mais ou menos como o Frank Miller e o fato de outros artistas terem recriado a Elektra, mas esta é uma outra história). O assunto gerou uma pequena polêmica sobre direitos autorais, a atitude ética das editoras americanas e a postura dos autores (escritores e desenhistas) que trabalham com quadrinhos.

Quando escrevi o artigo sobre El Cazador, série que eu gostava bastante, revi as capas dos seis números publicados. Havia esquecido que a capa da quinta edição é uma homenagem (ou plágio... você captou a idéia) de The Bucaneer, pintura de Howard Pyle.

Pyle (1853-1911) é um ilustrador famoso, conhecido por suas pinturas sobre piratas e que abriu uma escola de arte (Brandywine) pela qual passaram nomes como Newell Convers Wyeth, Maxfield Parrish e Frank Schoonover.

Imagino que a maioria dos leitores não conheça estes nomes, mas na área da pintura e ilustração, é mais ou menos a mesma coisa que dizer (só para estabelecer a comparação) que Pelé montou uma escola de futebol pela qual passaram Zico, Ronaldo e Falcão. Quem estiver curioso que faça a busca de imagens no Google e se deslumbre com as pinturas (ou torça para que eu poste um artigo aqui).

Voltando ao assunto, The Bucanner, de Pyle, é relativamente famoso e já havia sido homenageado (insira aqui a palavra desejado) pelo Mignola (que estava no debate com o Lethem) na capa de Marvel Fanfare # 43, com Namor no papel do Bucaneiro.

O que liga os assuntos acima, foi que hoje, por coincidência, li um artigo do Eddie Campbell (de Do Inferno e The Fate of the Artist) sobre o plágio. O texto não é novo, foi escrito em fevereiro deste ano.

É muito interessante e bem escrito (e meio que centrado na posição do filósofo Collingwood), traz uma análise da obra de Roy Lichtenstein (aquele que pintava enormes telas com imagens dos quadrinhos), do movimento pop art, particularmente da pintura Whaam!.


A polêmica em relação ao trabalho de Lichtenstein é que ele copiou quadrinhos de outros artistas, particularmente Irv Novick em Johnny Cloud e Russ Heath.

Os comentários sobre o artigo de Campbell também são interessantes, com participação de Dave Gibbons (que menciona o fato das cópias de Lichtenstein serem tecnicamente muito inferiores aos originais de Novick e Heath); Neil Gaiman; John Coulthart e outros.

Coulthart é um artista britânico que trabalha com capas de CDs, DVDs e livros, e que tem um projeto de quadrinhos com o Alan Moore (The Soul). Ele menciona o trabalho do crítico de arte Robert Hughes sobre o "valor do novo", e algumas opiniões bem curiosas do produtor musical Brian Eno.

Em outro comentário é sugerida leitura do artigo The Ecstasy of Influence: A Plagiarism?, publicado na revista Harper's Magazine, em fevereiro de 2007, e escrito por Jonathan Lethem (escritor mencionado no fato banal 2).

Este é outro excelente artigo, focado no plágio na literatura, e igualmente relevante em termos do ponto de vista artístico, influências e da ética.

Infelizmente, para alguns leitores, os dois artigos que menciono aqui estão em inglês.

Existem centenas (ou até milhares) de capas como as que eu mostrei acima, indo das óbvias homenagens a Action Comics # 1 (surge o Superman) e Amazing Fantasy # 15 (primeira aparição do Homem-Aranha) às incontáveis referências a pinturas famosas (só a American Gothic deve ter uma dúzia), capas de discos, cartazes de filme (Apocalypse Now), etc.

Algumas encaro como homenagem; outras, como inspiração. E você? Comentários?

8 comentários:

Victor disse...

Desses aí eu só conhecia o Rockwell. Em geral, na minha opinião, trata-se mesmo de homenagem/referência, mais do que plágio. Mesmo no caso do Lichtenstein não me parece plágio, mas algo como uma referência, ou um antropofagismo 'oswald-de-andradiana': um retrabalho em cima de referências culturais absorvidas. Lichtenstein desloca o núcleo da criação de outro artista do entorno cultural no qual foi originalmente criado, e 'emoldura' (não no sentido físico, mas vá lá, no caso dele também nesse sentido) o que foi deslocado em outro enfoque de percepção (em outra 'mídia', para usar a linguagem corrente): condizente com o entendimento moderno de que é o meio e não o conteúdo que determina a percepção plástica. No caso das capas, o caminho é exatamente o oposto a esse, mas com os mesmos efeitos. Prova de que nos dias de hoje as fronteiras entre arte formal e 'cultura' de consumo está mais para suruba criativa (viagei?).

Eduardo Nasi disse...

Olha, muitas vezes eu acho que é homenagem mesmo. Mas o que eu queria dizer é que a Companhia das Letras lançou o livro do Lethem. Por aqui, chama-se A Fortaleza da Solidão.

thiroux disse...

Acho que a principal diferença é que as homenagens ou referencias ganham em valor e esperam que sejam reconhecidas. É uma espécie de sátira, tem que conhecer o original para ver uma graça maior na peça - isso eu acho muito legal.
Já no plágio a idéia é diferente - não espera que o espectador tenha conhecimento do original, e todas as modificações, qndo deitas, são justamente para evitar a conexão entre um e outro.

Márcio disse...

acho que isso aqui se aproxima mais de um plágio: http://www.melhoresdomundo.net/arquivos/004522.php

Anônimo disse...

no caso de capas eh uma bonita homenagem. no caso da serie heroes...eh puro plágio!

Tati Viana disse...

Rapaiz... Eu realmente não gosto dessa coisa de fazer cópias. Homenagem, pode até ser... Mas sou contra mesmo.

Anônimo disse...

a capa do disco solo do edgar scandurra do ira! também faz homenagem a sam pezzo (não sei se escrevi certo)
basta dar uma conferida
nesse caso, homenagem, pois o cara curte mesmo hq's e tem uma música no disco chamada "AMOR EM BD"
oh, raios!
abração

andré maschietto

Cláudia Dans disse...

Sérgio,
nunca me senti tão incomodada com um texto como o seu! tanto que o li mais de uma vez e fiquei pensando por horas nesta questão de homenagem, inspiração ou copia! sinceramente, dizer se é inspiração, plágio ou homenagem é complicado. no Renascimento, era normal um artista copiar outro. eles entendiam isso como homenagem! mas e hoje, em pleno século 21, inspirar-se num texto é copiá-lo? e a questão da intertextualidade (dialogo entre os textos)? será que as imagens que vc cita não são fruto da leitura de outras imagens?
Segundo, Julia Kristoeva cada texto é a "absorção e transformação de outro" texto, ou seja, o texto se apropria de outros, conscientemente ou não.
por isso, penso que essas obras são produtos transformados de outros textos, ou como o colega disse acima: "um retrabalho em cima de referências culturais absorvidas".

abraços,
Cláudia