04 março 2009

Pop Fórum analisa o desafio de Watchmen


Depois de muito tempo, nosso antigo colaborador Fernando Viti retorna ao Universo HQ, mas não com suas ácidas resenhas. Ele volta com sua coluna Pop Fórum, analisando o desafio de transpor Watchmen para o cinema.

Leia e comente à vontade.

18 comentários:

Claudio Cardoso disse...

Olá. Eu lembro da primeira vez que li watchmen. No final fiquei praticamente em choque. Era completamente diferente de tudo que já tinha lido. Foi uma sensação marcante. Próximo disso eu senti quando terminei de ler Batman ano um e cavaleiro das trevas. Duvido que possa sentir isso novamente ao assistir o filme (mas vou mesmo assim). Nessas horas tenho que dar certa razão ao Alan Moore. Talvez não seja possível transportar certas histórias para o formato do cinema.

Victor disse...

Cláudio, a expressão "choque" é muito feliz, pois foi o mesmo que senti quando, há mais de dez anos, li a obra de Moore.

Tenho acompanhado a recepção da crítica americana ao filme de Snyder, principalmente pelo Rotten Tomatoes, e no máximo estão dando nota 6,9 (de 10) ao longa. Há aqui algumas críticas contundentes:

- "Its failure is one of imagination -- although faithfully approximating Dave Gibbons's original drawings, the filmmakers are unable to teleport themselves to the level of the original concept."

- "Zack Snyder's attempt at being faithful to Alan Moore and Dave Gibbons' vision is ultimately the film's biggest fault since it makes the flaws in the original source material far more obvious."

- "Snyder has appropriated Moore's doomsday themes without any sense of how to animate them. That's the trouble with loyalty. Too little, and you alienate your core fans. Too much, and you lose everyone -- and everything -- else."

- "Alan Moore was right in detaching himself from the project, maintaining his integrity."

Pelo jeito, o "visionário diretor de 300" (hein? 300 era visionário? desde quando?) não tem sequer a cultura pessoal necessária para compreender o trabalho de Moore.

Jackson Good disse...

Victor, essa foi uma visão muito parcial. Outros sites, como os nacionais Omelete e Judão, têm falado bem do filme.

Acho que numa adaptação, vc não pode já começar de má vontade, tipo "é impossível adaptar isso, então vai ser uma droga". É preciso ter um pouco de noção das coisas. Vão cortar muitas passagens? Claro. Não vai ser tão bom quanto o original? Provavelmente. Mas é assim que funcionam as transposições pra mídias diferentes. Se a pessoa não consegue aceitar isso, é melhor nem ver mesmo.

Não entendo quem acha que, por ser impossível de conseguir uma fidelidade absoluta, é melhor não existir um filme. Caramba, um filme de Watchmen não é um coisa boa? Como fã da série, prefiro dar um voto de confiança e espero um ótimo filme, tendo consciência de que estarei vendo uma ADAPTAÇÂO.

Sobre o Snyder, tenho visto muita gente descendo a lenha no cara. Mas pelas entrevistas que li, ele tem muita noção e respeito pelo material original. O cara conseguiu convencer o estúdio a fazer um filme com censura 18 anos e manter a trama em 1985. Em se tratando de um blockbuster de super-herói (ao menos na visão dos executivos), não é pouca coisa.

Victor disse...

Espero que você esteja certo, Jackson. Mas você citou o Judão e o Omelete, porém esses são sites especializados num público de quadrinhos, e tem uma ótica própria ao analisar uma versão cinematográfica de quadrinhos. O Rotten Tomatoes não é um site que faz críticas, mas sim compila a análise de críticos de cinema de dezenas de jornais dos Estados Unidos. É uma versão muito mais próxima daquela que terá o público "leigo". Para constar, no Rotten o Dark Knight ficou com nota próxima a 10. Nem vou falar da nota que recebeu o Spirit do Frank Miller.

E outra coisa: espero estar errado, mas me parece que o filme do Snyder tem grandes chances de não bombar nas bilheterias. Afinal, estamos na "ressaca" do Oscar: todo mundo quer ir ao cinema para ver os vencedores da premiação. E aqui no Brasil, o Watchmen vai estreiar junto com o grande vencedor do Oscar desse ano.

Mas realmente ESPERO estar errado.

Jackson Good disse...

Mas é exatamente esse o ponto, Victor. Críticos da imprensa "normal" geralmente não gostam, não entendem, e têm preconceito contra quadrinhos. Não levo a opinião deles em conta faz tempo. Estranho que vc aparentemente leve, aliás.

Quanto a opinião do público leigo e o desempenho na bilheteria, não importa nem um pouco. O que me interessa é se vou gostar do filme.

Guilherme Kroll disse...

Já vi o filme, acho que falhou em muitos aspectos. É bom como filme, mas ruim como Watchmen.

alessandro disse...

Olá Fernando. Foi um grande desafio o diretor Zack Snyder adaptar Watchmen para o cinema. Como todas as adaptações essa também irá gerar muita polêmica. Alguns com certeza aprovaram o filme, outros ( incluindo a maioria da crítica brasileira com certeza) irá torcer no nariz.Ainda não assisti, mas pelo trailer é possível constatar que na parte visual o diretor foi bastante fiel ao original. Quanto ao roteiro e as atuações ( estes aspectos bem mais complicados de serem analisados) não sei o filme foi bem sucedido, ainda mais levando-se em conta que Watchmen tem uma narrativa tão complexa que pode ser considerado literatura de alta qualidade. Estou torcendo para que Snyder tenha preservado a essência do brilhante e perturbador texto original de Alan Moore, que para mim é uma das metáforas mais interessantes da América em crise. Abraço.

Claudio Cardoso disse...

Pessoal. Com certeza vou assistir o filme. Mas vou de mente limpa sem fazer comparações com o quadrinhos (será que irei conseguir?).
Mas como disse antes. Não acredito que será um "divisor de águas" como foi a obra em quadrinhos. De qualquer forma isso não invalida o filme, afinal trata-se de Watchmen no cinema.

Franchico disse...

O melhor comentário que vi até agora sobre o filme foi de Rich Johnston, da coluna Lying in the Gutters:

"Drama político multi-camadas com um perdoável toque de copslay".

É mole?

Tá aqui: http://www.comicbookresources.com/?page=article&id=20265

Delfin disse...

Temos resenha no UHQ, minha e do Guilherme. Confiram!

E confiram o filme tbém!

Jackson Good disse...

Desculpem, mas achei a resenha muito negativa e equivocada. Ficou evidente que vcs não conseguiram se desligar da hq e entender a adaptação para uma mídia diferente (isso, no fundo, acaba sendo gosto pessoal). Muitas coisas foram cortadas, óbvio, mas acho que o essencial está lá e funcionou muito bem. Também não acho que faltou humanidade porque os personagens lutam muito bem. Temos que lembrar que é CINEMA, o visual conta muito. As lutas ficaram ótimas no estilo "slooow moootionnACELERA!" do Syder. Ia ficar extremamente sem graça feito diferente.

O filme foi adequado pra agradar o público comum? Um pouco. Mas o estrago poderia ser muito pior, podiam colocar a história nos dias de hoje e falar de terrorismo, podiam suavizar pra obter censura leve, podiam mudar RADICALMENTE a trama pra ficar mais "super-heroístico"... e nada disso aconteceu. Obrigado, Zack Snyder.

A questão é mente aberta, grau de aceitação. De minha parte, adorei demais o filme. Podem me chamar de emo, mas chorei 2 vezes. Nos créditos inicias, que situam magistralmente o universo de Watchmen, e no fim do Rorschach. Nas duas ocasiões, me veio à mente "cara, que perfeição". Obrigado, Zack Snyder.

Espero ansioso pela versão estendida, mas por enquanto estou plenamente satisfeito. Obrigado Zack Snyder.

Guilherme Kroll disse...

Jackson, opinião é opinião, e eu respeito a sua. Só que discordo de uma coisa: as lutas não ficariam chatas sem esse slow motion-acelera. Muito pelo contrário, esse efeito deixa os combates meio morosos e já foram ultrapassados no cinema. Eram novidades há dez anos, com Matrix, não são mais. Cavaleiro das Trevas, por exemplo, não usa esses efeitos.
E os heróis precisavam ser mais humanos sim, menos supers, menos poderosos. spoiler Por exemplo, quando Ozymandias segura a bala do revolver no gibi é surpreendente, no filme, fica corriqueiro.

Jackson Good disse...

Guilherme, as duas coisas acabam sendo a mesma: o senso visual caprichado típico do diretor. Como vc disse é opinião. Pra mim, ficou muito show em 300 e em Watchmen também. Aliás, em Matrix era simplesmente o bullet time em câmera lenta. Isso de slow motion que repentinamente acelera é marca registrada do Snyder.

No mais, eu também gostaria de uma adaptação fidelíssima da forma como vc falou. Mas temos que aceitar que esse filme PRECISAVA agradar a massa. Nenhum blockbuster custando mais de 100 milhões pode abrir mão disso e ser "autoral". Dou graças a Deus por essa adequação ter sido no visual e não na trama/narrativa/essência da história. Watchmen, o filme, é bem diferente nesse sentido de qualquer outro filme do gênero. Assim como a graphic novel. Então, pra mim, valeu.

Guilherme Kroll disse...

Isso é verdade, eles não poderiam gastar 100 milhões num filme para 5 mil pessoas, tinha mesmo que agradar as massas.

Jackson Good disse...

Sei que estou enchendo o saco aqui, mas essa vale a pena: nessa entrevista com os roteiristas (muito interessante, por sinal) mostra bem como o filme poderia ter saído, em termos de história:

http://omelete.com.br/cine/100018341/Exclusivo__Roteiristas_falam_sobre_a_adaptacao_de_Watchmen_ao_cinema.aspx

Victor disse...

Acabo de ver o filme.

Infelizmente, tenho que dar mesmo nota 7. A obra de Snyder não é um desastre total. Não é um filme ruim. Simplesmente é um filme "mais ou menos". Meia boca. E não estou falando isso sob a perspectiva de fã da obra de Alan Moore. Estou falando isso como fã de cinema. O filme, independentemente de qualquer comparação com a obra original, é somente "razoável". A história não é envolvente, a trama parece atropelada (e sem graça, pois Snyder tatua a palavra "VILÃO" na testa de Veid desde a primeira cena) e falta "alma" nas atuações (algumas desastrosas, e outras simplesmente "mais ou menos"). O melhor momento do filme são os créditos iniciais, quando toca Dylan e mostra várias cenas históricas. Aliás, os trailers do filme são melhor que ele próprio. Sinal de que Snyder é bom mesmo fazendo video-clipe.

Agora, se for para analisar o filme como fã da obra de Morre, comparando com Watchmen, em uma frase resumo tudo: o "básico" de Watchmen está lá, mas a "essência" de Watchmen não está em lugar nenhum. O resultado disso é que os personagens são caricatos, faltando-lhes tridimensionalidade: Rorscharch é só mais um louco justiceiro, Manhatan é um ser frio e distanciado da humanidade, Veidt é um gay nazista. O único personagem que não parece caricato é o Comediante, mas isso porque os 50 minutos iniciais do filme são dedicados a ele: vejam, Snyder usou 50 minutos para descrever os dois primeiros capítulos da obra de Moore, e o resultado é que o resto da história teve de ser resumida em demasia. O que menos me incomoda (aliás, não me incomoda nenhum pouco) é a alteração do final: realmente, um monstro gigante surgindo em Manhattan seria muito estranho nas telas.

Detalhe, na minha sessão do cinemark no Barra Shopping, um senhor com um filho de 15 anos não pôde comprar o ingresso para o filme, pois a direção do Cinemark proibiu a venda de ingressos para menores de 18 anos. Perguntamos à moça da bilheteria, e ela disse que era porque alguns pais reclamaram que o filme "não era pra criança", já que tinha cenas de nu e uma cena de "sexo explícito."

Acho que o filme não vai agradar nem gregos nem troianos. Não vai agradar aos fãs de Moore, pois a esses não interessa filme algum, já que a obra original basta. Não vai agradar ao público leigo, porque é uma história atropelada, onde Snyder mostrou suas limitações como diretor. Acho que os únicos que vão gostar mesmo do filme são pessoas que preenchem o seguinte perfil: fanboys que curtem quadrinhos, mas que não tem qualquer predileção em particular por Watchmen, e para os quais qualquer versão cinematográfica de super-heróis é algo digno de palmas. Mas, para o azar de Snyder, esse povo não representa nem 1% da população.

Victor disse...

Ah, e mais um comentário sobre o que Jackson Good falou:

Nenhum blockbuster custando mais de 100 milhões pode abrir mão disso e ser "autoral"?

Ué, e o TDK de Nolan? Ele provou que estamos equivocados ao supor que a "massa" é feita de clones do Homer Simpson. Ao contrário do que o juvenil Iron Man apontava, TDK provou que não é preciso abdicar de densidade e qualidade para agradar as "massas". Mas, é claro, Nolan sempre foi muito mais diretor que Snyder.

Jackson Good disse...

A diferença é que todo mundo conhece o Batman, o Coringa (que foi o centro de um hype fenomenal) e TDK era uma continuação. Todo mundo foi ver já tendo gostado do Begins. Watchmen ninguém conhecia.