29 março 2009

E agora: dicas de cinema

Tem muita coisa boa nos cinemas desse nosso Brasilzão.

Watchmen, infelizmente, não é um deles. Eu até poderia passar alguns milhares de toques falando mal do bregalhão Zack Snyder, da fotografia tosca, das cenas risíveis, da direção equivocada. Dava também para celebrar a bilheteria mixa. Por exemplo: neste mesmo Brasilzão, o tio Danny Boyle, com seu sensacional Quem quer ser um milionário?, não deixou Watchmen liderar nem no seu próprio fim de semana de estreia.

Mas não vou falar de Watchmen, não. Motivo: os demais colaboradores do Universo HQ não aguentam mais me ouvir discursando sobre esse assunto. E alguns até gostam do filme (o que só reforça a tese de que fazer um site é um exercício de tolerância e convivência).

Por isso, vou focar nos filmes a que assisti neste fim de semana. Afinal, como eu ia dizendo, tem muito longa-metragem bom por aí.

Vamos começar por um filme que tem certa relação com quadrinhos: Pagando bem, que mal tem?, que talvez alguns leitores conheçam melhor como Zack and Miri make a porno ou como "o filme pornô de Kevin Smith".


Kevin Smith é conhecido nos quadrinhos por passagens em Demolidor e Arqueiro Verde e, no cinema, por filmes como Dogma e O Balconista. Dizem por aí que é um diretor nerd, mas isso é uma definição ampla demais. Zack Snyder também é um diretor nerd, por exemplo, mas é ruim que dói. Kevin Smith é legal - talvez porque justamente não trate temas nerds de forma imbecil.

Pagando bem, que mal tem? fala sobre sexo. A trama é exatamente o que o título original descreve: os velhos amigos Zack e Miri decidem fazer um filme pornô para pagar as contas. Soa patético, e é - só que de propósito. Perambulando pela pornografia, terra do sexo fake e acrobático, Smith fala de sexualidade com uma maturidade de fazer inveja a 99% dos filmes de Hollywood.

Resultado: o filme, por ser natural, acaba destoando do mundo das comédias de matinê. Na sessão a que assisti, um bando de adolescentes ficou visivelmente incomodado pelo que viu. Pela reação a um selinho entre dois homens, acho que nunca tinham visto nada parecido - nem Brokeback Mountain. Numa cena de nu frontal masculino, umas oito meninas saíram do cinema. Quanto mais Smith se aproximava do sexo real, maior o rebuliço na sala.

Veredicto: veja.



Vou ser franco: não achei a primeira parte de Che, de Steven Soderbergh, grande coisa. Mas acho que os leitores do Universo HQ podem gostar. Afinal, geralmente eles gostam de O senhor dos anéis.

Os dois filmes, por incrível que pareça, são muito parecidos. Ambos começam com um bando de gente decidida a realizar uma missão improvável, quase impossível. Em seguida, em grupo, essas pessoas começam a percorrer trilhas em florestas misteriosas e a encontrar apoio de gente muito esquisita - e até de alguns seres fantasiosos. De repente, sem mais nem menos, os dois filmes acabam - porque continuarão em partes que ainda serão lançadas.

Além disso, os dois filmes são épicos, tediosos, fantasiosos e, claro, distorcem bastante a história original.

Che, ao menos, tem uma vantagem: é uma obra em apenas duas partes, não três, e ambas duram menos de três horas e meia. Pra mim, foi um alívio.

Veredicto: veja se estiver a fim. Mas eu ainda sou mais a HQ do Oesterheld e dos Breccia.



Passageiros eu fui ver por conta do Rodrigo Garcia. E da Anne Hathaway, que era uma atriz linda e subestimada até o ano passado (mas agora está ficando famosinha, graças principalmente ao ótimo O casamento de Rachel, também em cartaz). Mas fui principalmente por causa do Rodrigo Garcia.

Filho do escritor Gabriel García Márquez, Rodrigo é criador, diretor e produtor da ótima série Em terapia, dirigiu alguns dos melhores episódios de A sete palmos e um ótimo de Família Soprano. Ou seja: credencial não lhe falta. E é fato: a direção é ótima, especialmente a de atores.

Mas faltou roteiro. Porque, da metade para o final, o filme simplesmente degringola. Vira uma patuscada esotérica vomitativa - o que, aliás, é cada vez mais comum nesta nossa era das trevas.

Veredicto: vá, mas saia depois de uma hora de filme.



E aí, por último, vem o melhor: Gran Torino, de Clint Eastwood, com o próprio, e ainda por cima vivendo um velho ranzinza. Walt Kowalski um sujeito muito inspirador. Vou passar a me inspirar nele na hora de escrever resenhas de revistas como Contagem Regressiva - Arena, minha próxima atividade neste domingão de sol.

Veredicto: veja.

22 comentários:

Sidney Gusman disse...

Edu, você está igualzinho ao Clint Eastwood: um velho ranzinza! :-)

O senhor dos anéis é demais!

Eduardo Nasi disse...

Minha meta é, em cinco anos, me comunicar apenas por rosnados.

Val disse...

O de Kevin Smtih eu ja tinha assistdo em janeiro e nao posso nem falar mal pois sou fan do trabalho dele!

Amalio Damas disse...

Desde Os Inperdoáveis, parece que Clint Eastwood tomou uma injeção de genialidade que nunca mais passou. Depois vieram As Pontes de Madison, Cowboys do Espaço, Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro e agora Gran Torino, sem falar nos outros, que não são grandes obras primas, mas que são melhores do que muita coisa que a gente gasta dinheiro e tempo assistindo e olha que o vovô ainda tá com gás e está filmando mais um, The Human Factor previsto para este ano.

Cas disse...

O Nasi é mesmo rabugento, mas em geral concordo com 85% das opiniões dele.
Discordo de Watchmen, que gostei pacas.
E seguirei as dicas dos outros filmes.
E sugiro aqui o que vi nas últimas duas semanas:
"Quem quer ser um milionário", que é sensacional.
"Milk" é muito, muito bom, mas se vc se incomodou com a descrição do selinho entre homens acima, não vá.
"O Leitor" - drama que deu o Oscar a Kate Winslet, pesado, mas muito bom.
abraços.
Cassius Medauar

Toni Rodrigues disse...

Eu gostei do Watchmen, mas confesso que esperava mais. Agora resenhar essa porcaria de Contagem Regressiva é que deixa você ranzinza...

Eduardo Nasi disse...

Cassius tem razão: Milk é um filmão. Gus Van Sant está em ótima fase, aliás. Paranoid Park é outro filmaço.

Toni, resenhar Contagem Regressiva piora o humor, sim, mas ver Watchmen me deixou bem pior. É um dos piores filmes que já vi.

Hugo Nanni disse...

Pô Nasi, você achou o termo que eu sempre quis adicionar quando penso em Zack Snider: brega.
É o nerd mais cafona que eu já conheci, inclusive desde 300 ele comete as mesmas breguices. E o povo adora.
Ainda bem que existe David Lynch na ativa.

Guilherme Kroll disse...

Amálio, Pontes de Madson é um dos filmes mais chatos que eu já vi, hehehe. Mas concordo, o Eastwood é genial, só que desde os faroestes!!!

rafael disse...

O filme do Boyle é mediano.

Anônimo disse...

Watchmen é sensacional. Não dava pra ser mais fiel, tah reclamando à toa.

John disse...

Watchmen é um lixo, como bem disse o Nasi. Brega até não poder mais. Fiquei constrangido em várias cenas.

E pode até ser fiel ao enredo, mas não é fiel ao 'espírito' dos quadrinhos. E nem precisava ser 'tão' fiel assim. Bastava ter feito um bom filme e pronto.

Amalio Damas disse...

Ah Guilherme, pode até ser chato, eu particularmente não acho, mas foi o filme no qual o Eastwood deixou o seu lado Dirty Harry, mostrando que os brutos também amam e que o amor não tem idade. Apesar de achar que a solução para a humanidade é a hecatombe nuclear, eu ainda acredito no amor.

Alessandro disse...

Coitado do Zack, sempre recebendo "elogios"... a gente só fala em 300 e Watchmen mas todo mundo se esquece de Madrugada dos Mortos. Tudo bem que o filme é baseado na idéia do cara que criou o gênero mas a versão de Snyder é um dos melhores filmes de zumbis que eu já vi.

Leandro disse...

Fico feliz com seu comentario sobre watchmen Nasi, pois apesar de parecer esteticamente fiel, achei um filme chato, e ate agora nao tinha visto ninguem concordar comigo.
abç

... disse...

Sinceramente eu não consigo entender o que as pessoas queriam de diferente em Watchmen.

Eduardo Nasi disse...

Eu até mesmo responderia os comentários dos senhores a respeito de Watchmen, mas não me sinto disposto a perder ainda mais tempo com um filme que em um ano será tão relevante quanto o da Liga da Justiça que passa no SBT.

Sidney Gusman disse...

Menos, Nasi, menos.

Não será nada memorável, mas também ficará longe do trash.

Eduardo Nasi disse...

Só pra pontuar: não falei de trash, falei de relevância. E Watchmen será irrelevante.

Leandro disse...

Apoiado Nasi

Sidney Gusman disse...

Quanto à relevância, pode ser mesmo!

Jackson Good disse...

Chega a ser cômica a cruzada pessoal do Nasi contra Watchmen. Gosto é gosto, lógico, mas a felicidade com que ele fala que o filme perdeu pra Quem quer ser um milionário...

Tipo, Watchmen NUNCA faria uma bilheteria arrasadora. Censura 18 anos, desconhecido do povão, complexo e longe do padrão "filme de herói" que povão de repente tava esperando... e ainda por cima estréia junto com o VENCEDOR DO OSCAR DE MELHOR FILME. Seria estranho é se fizesse um mega sucesso.