25 setembro 2008

Incomunicabilidade

A nota de hoje sobre a participação de Jodorowsky numa mostra da Estação Pinacoteca merece um pitaco aqui no blog.

Na ladainha do coitadismo dos quadrinhos, é normal a gente ouvir que as HQs são subvalorizadas por todo mundo e que só sobrevivem graças a uns poucos abnegados, os leitores.

Mas aí você entra em um dos mais importantes espaços de arte contemporânea de uma das cidades mais importantes do mundo e encontra as Fabulas Panicas, uma série de HQs surpreendente, coisa rara de se achar por aí.

Lá mesmo, ano passado e no começo deste, houve uma mostra de Öyvind Fahlström, artista paulista radicado na Suécia que dialogava radicalmente com as HQs na maioria dos trabalhos expostos. A mesma mostra integrou a Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, ano passado. Era um troço importante. E bom demais.

E, mesmo que a gente tenha falado do assunto no Universo HQ, a mostra não rendeu nenhum burburinho do meio das HQs, que parecia mais interessado em detonar alguma saga qualquer da Marvel.

Outro caso: inaugurou agora mesmo na galeria Choque Cultural, em São Paulo, a mostra Trimassa, que ainda não fui ver, mas já sei que inclui trabalhos de dois dos grandes autores de quadrinhos brasileiros: Jaca e Fábio Zimbres.

Eu poderia ir além das três mostras e das artes visuais, mas a essas alturas já deu pra sacar onde quero chegar: enquanto os leitores fiéis reclamam que a nova fase do Homem-Batatinha está ruim, tem muita gente aí fora aproveitando o que os quadrinhos têm de melhor para oferecer. São trabalhos geniais em exposições fantásticas.

Mas quem é que aceita o convite?

12 comentários:

Sidney Gusman disse...

Belo post, Edu. E verdadeiro!

Tem gente que acha que quadrinhos é só este ou aquele gênero. E trata-se de uma mídia com muito, muito mais potencial.

Adilson disse...

Concordo plenamente com você, muitos fãs reclamam da decadência e dos maus olhos que a sociedade em geral tem com os quadrinhos, mas se analisarmos os mais vendidos percebemos que o que vende é o Homem-Aranha e os X-men, mesmo quando sua qualidade é questionavel, e os fãs reclamam frequentemente quando as histórias estão fracas, mas porque não compram J.kendall, 100 balas, e até mesmo o Demolidor que apesar da qualidade amarga vendas fracas.
O que muitos fãs não percebem é que os quadrinhos não são apenas caras de capa e cueca sobre a calça brigando com cientistas megalomaniacos, mas sim uma forma de se contar uma história como filmes,rádio e a TV. E o que mais me fascina nos quadrinhos é que o autor não precisa contratar vários atores e uma equipe de 200 pessoas ou se ele quer uma cena em que o planeta exploda ou uma cena de perseguição não é preciso checar com os chefes do estúdio de filamgem para ver se isso é possível e se encaixa no orçamento. Se você quiser fazer tudo isso em uma HQ não é preciso prestar contas para com qualquer pessoa, você simplesmente desenha!
E é isso que para mim faz dos quadrinhos tão mais interessantes não os homens de colante com mania de grandeza, mas saber que nos quadrinhos não há limite algum que não o da imaginação do seu criador.
Mas infelizmente são poucos que veêm os quadrinhos como uma forma de se contar uma história e como uma forma de arte, a nona delas.

Victor disse...

Legal Nasi!

Esse fenômeno (o 'coitadismo') não ocorre na Europa, onde nas livrarias especializadas a gente encontra tanto executivos quanto donas-de-casa comprando quadrinhos. Da mesma forma não ocorre no Japão, onde tem mangás de todos os gêneros e para todos os públicos. Então o problema, como se vê, não está na nona arte em si. Ela não tem nada de coitada, graças à Tutatis.

A verdade é que há muito tempo os chamados 'fanboys' se 'apropriaram' do mercado de quadrinhos. 'Apropriaram-se' no sentido de que, por um lado, adoram transmitir a idéia de que eles são os profundos conhecedores da hermética cronologia de seus amados super-heróis, e, por outro, representam um público fiel que nenhuma editora ousa ignorar, porque com eles sempre há a garantia de alguma venda, por piores que sejam as histórias do Homem-Batatinha. Há uma apropriação também no sentido de que, sendo eles, em países como o Brasil e os EUA, o principal público consumidor, fingem que os outros gêneros de quadrinhos não existem.

Basta ir numa banca e ver a grande proporção de revistas com homens musculosos mascarados, em trajes colantes e coloridos, e eventualmente com uma cueca por cima das calças. Os outros gêneros dos quadrinhos em geral ocupam um espaço muito menor.

Vamos analisar as outras formas de expressão artística. Imaginemos, por exemplo, o público que gosta de literatura, o público que gosta de teatro e o público que gosta de artes plásticas. Eles 'consomem' (para usar um termo mercadológico) livros, peças de teatro e exposições de pintores, escultores, etc. Mas pergunto: existe, por acaso, centenas de fóruns na internet onde esses sujeitos gastam horas e horas de seus dias discutindo sobre determinado livro, sobre determinada escultura ou sobre determinada peça (discutindo e brigando entre si)? E Quantos dessas pessoas se julgam 'especialistas' em literatura ou artes plásticas ou teatro? Pouquíssimas. A maior parte apenas gosta de usufruir dessas expressões artísticas, sem grandes pretensões. O cinema também: grande parte do público não tem qualquer pretensão de ser especialista na sétima arte, e nem em ficar discutindo indefinidamente sobre o assunto na internet. Mas os quadrinhos, aparentemente, só são lidos por pessoas que se julgam 'especialistas'.

Assim, em muitos países, notadamente naqueles onde existe pouco espaço para outras formas de quadrinhos adultos que não os de super-heróis, há uma imensa massa de fanboys, todos eles adorando se considerar 'experts' na matéria, ficando horas e horas a fio por dia em fóruns e grupos de discussão debatendo o tema (isso talvez seja uma forma de se sociabilizarem - e aí talvez venha um 'problema': para muita gente, quadrinhos é principalmente uma forma de estabelecer laços de convívio social, diferente do que é para o público de outras artes). A impressão, para o potencial público leigo, é que para gostar de quadrinhos é preciso gostar MUITO de super-heróis e entender MUITO da confusa cronologia do "Super-Batatinha" ("como, ele era o clone de uma Batata?", "como, ele morreu e ressucitou?", "como, zeraram a cronologia e ele voltou a morar com o bisavô?"). E ninguém pode culpar o 'público leigo' por isso (e já a idéia de que existe de um lado o público 'leigo' e um público 'não-leigo' já mostra que tem algo errado).

Respondendo a sua pergunta final, Nasi, e pedindo desculpas por ser um pouco irônico, fanboy não aceita o convite, porque não vai sair de casa para perceber que quadrinhos são uma coisa que não lhe pertence.

Sidney Gusman disse...

Victro, como não dá pra incluir um som aqui, usarei uma onomatopéia pra responder o seu comentário:

CLAP! CLAP! CLAP!

Mandou bem demais!

Abraço

Lielson disse...

entrei nos comentários pra concordar com o Nasi e sou "obrigado" a concordar também com o Victor.

quadrinhos é um meio (mídia), não uma capa esvoaçante.

Victor disse...

Valeu Sidão! Mas felizmente a coisa tá mudando, tem muita novidade aqui mesmo no Brasil. Bá e Moon são um exemplo disso!
Abraço

Fabio Ciccone disse...

Muito bom o post... o penúltimo parágrafo disse tudo!

Guilherme Neto disse...

ocê esperaria, por exemplo, que uma mostra de documentários franceses da década de 60 causar "burburinho" no meio de cinema, uma vez que é algo aceito em todas as camadas da sociedade como uma forma de arte?

Achei bastante bastante injusta e preconceituosa a crítica feita, uma vez que parece considerar arte apenas o que a Pinacoteca julga ser.

Além do mais, Jodorowsky ou Fabulas Panicas são nomes não tão famosos por aqui, portanto, é uma comparação injusta. Vale lembrar que não está exposto Incal por exemplo. Porque, não seria arte também?

Acredito que o mesmo possa se referir aos autores brasileiros que, merecidamente ou não, são desconhecidos para as gerações atuais.

Marvel ou DC, por mais que eu não goste muito, são mais populares que estes artistas. E também fazem arte em quadrinhos. E isso não significa que seus leitores ignorem outras obras de quadrinhos ou de outras artes.

Acho muito hipócritas os discursos contra a cultura pop em geral, como se fossem algo menor.

Jean Carllos disse...

Fala Nasi! Cara concordo contigo, quadrinhos não se restringe aos supers. Apesar de ser a primeira coisa que vem na mente quando se fala "quadrinhos", trata-se de uma forma de arte para comunicar algo. O tema só tem limite que o próprio artista impõem. Apesar dos supers serem os mais famosos e venderem muito mais, existem muitos quadrinhos dispostos a mostrar que arte sequencial é muito mais do que imaginamos. Bela crítica!

Abraços...

Milena Azevedo disse...

Belo puxão de orelha, Nasi! Aos poucos, poucos estão abrindo os olhos para todo o potencial que a mídia "quadrinhos" tem. Pelos menos, no Sul e no Sudeste vocês ainda podem contar com algo desse porte, mas na "periferia" do Brasil, onde moro, é deveras complicado. A gente faz o que pode para fazer ver à sociedade que quadrinhos não são apenas heróis de roupas justas ou de olhos puxados, mas que são arte. É o velho ditado da pedra batendo na água, um dia fura.

Marcelo Fontana disse...

Taí Nasi!! Enfiou o dedo na ferida. Os leitores querem a consideração dos quadrinhos como arte, que ninguém fique falando que é coisa de criança.

Mas é o próprio leitor quem não tem maturidade para encarar os quadrinhos neste status.

Franchico disse...

Concordo com o Guilherme. Todo mundo acompanha o Homem-Batatinha. E daí, que mal há nisso? Em todas as forma de arte oferecidas pela indústria cultural, existe o mainstream e existe o underground. Em alguns lugares, o undeground é mais desenvolvido. Em outros, como o Brasil, mal sobrevive. Mas isso é uma questão de tempo, vontade (principalmente dos artistas, em produzir e estabelecer um mercado intermediário) e de a economia se estabilizar. O povão ouve axé, pagode e sertanejo. Os "esclarecidos", música erudita, jazz e bossa nova. Os fanboys lêem Homem-Aranha, Superman e X-Men. Os "esclarecidos", Liniers, Jodorowsky e Chris Ware. Isso não quer dizer que todo fanboy seja ignorante. Claro que existem os manés que jamais sairão disso. Mas quem precisa deles? Só as editoras grandes. Acho que é preciso trabalhar mais e reclamar menos. E que venham mais dicas bacanas como essa do post. Mas sem essa postura paternalista de "olhem, vejam o que é a arte de verdade, e não essa bobajada comercial de homens de colante". Soa mal, até por que sabemos que todos aqui adooooram homens de colante. (Sem viadagens, claro).