13 fevereiro 2008

Fetiches e Guerras

Atenção: se você não leu Guerra Civil # 7 e não quer saber o final, pare aqui!

Muita gente falou mal do final da minissérie Guerra Civil. O Sidão e o Nara, em particular, colocaram como o pior título que leram em janeiro. Por um lado, é de se esperar essa reação. A minissérie vinha caminhando muito bem, com uma história empolgante, mas teve um final, no mínimo, anti-climático.

No meio do auge da luta entre os heróis, algo que o Nasi vem apontando como um grande fetichismo para leitores, o Capitão América vê a destruição que está causando e simplesmente pára de lutar. Do nada, a batalha termina, Steve Rogers se entrega para a polícia e o lado do Homem de Ferro “vence”.

Deixando de lado a opinião daqueles que estavam torcendo por uma grande vitória do Capitão América e se decepcionaram, vários questionamentos foram levantados sobre esse final, sendo o principal deles o fato do Capitão ter percebido só agora os estragos que os super-humanos causam.

Se pensarmos bem, o grande problema foi a frustração que o final causou diante da expectativa que se tinha, pois, olhando o quadro geral, esse era o melhor encaminhamento que se poderia ter.

Mais do que uma história de fetiches, essa minissérie estava mostrando a posição editorial da Marvel para os novos tempos em que vivemos. A editora sempre foi famosa por levar mais realismo às suas histórias, humanizar os heróis e fazer os leitores se identificarem com eles.

Contudo, o tempo foi passando e a realidade que a editora mostrava em suas tramas estava cada vez mais distante do que os leitores esperavam, principalmente depois de dezenas de outras HQs que se propunham a mostrar como seriam heróis no nosso mundo.

Assim, para tentar marcar uma certa mudança de rumo, eles promoveram essa Guerra que opõe heróis tradicionais e personagens com uma concepção mais atual. De um lado, as identidades secretas, as roupas coloridas e o senso sempre afiado de ética, justiça e liberdade. De outro, a lei, a burocracia, o jogo político sujo e a noção de que o mundo está longe de ser preto e branco.

O resultado não poderia ser outro. O conceito de realidade na Marvel já mudou. Os heróis, a partir de agora, passarão a viver em um mundo mais complexo, lidando com diversas outras preocupações. Mas vale notar que o final mostra que continuarão existindo personagens para todos os gostos. Ainda terão aqueles que serão heróis no estilo mais tradicional (*) e aqueles que seguirão essa nova proposta.

Mas e o final? Oras, as histórias de guerra não funcionam mais nos dias de hoje. O Guilherme ontem assistiu a Rambo 4 e viu isso. Tudo que deu certo na continuação do Rocky não funcionou em Rambo, porque vivemos em tempos que os heróis de guerras são abominados, pois a guerra é algo moralmente reprovável.
Contudo, não podemos deixar de lado o fato que, até algum tempo atrás, éramos altamente favoráveis às batalhas, com algumas exceções sempre tachadas como hippies ou algo do gênero.

Assim, nada mais justo que o Capitão perceber só agora a destruição que ele está causando. Só agora essa destruição virou um problema, só agora ela foi posta em questão no universo dos super-heróis.

Vale dizer que a todo momento a Marvel mostrou uma forte tendência “contra o registro”. Pode ter sido só para despistar o leitor do final da trama, contudo, ninguém me tira da cabeça aquele texto do Greg Rucka que saiu em um dos encadernados do Arqueiro Verde sobre os leitores quererem heróis mais amargos, andando mais no “fio da navalha”, mais “realistas”. No fim, mesmo que seja uma estratégia narrativa foi um jeito de dizer que o jeito tradicional era bem legal, mas, se vocês insistem, se nos perturbam, nós vamos mudar, pelo menos até as próximas reclamações.

(*) Um dos grandes problemas de se manter alguns personagens como heróis tradicionais era o Homem-Aranha. Ele tem tudo para ser um herói de verdade em um mundo cínico (vide a versão Ultimate), mas entregou sua identidade e isso não funcionaria nesse novo conceito da Marvel. Então, como já dissemos por aqui, a editora achou mais fácil jogar os últimos 25 anos de história do personagem no lixo do que ter que lidar com o problema.

13 comentários:

Sérgio Codespoti disse...

Zé, existe outro ponto sobre o final da série.

Guerra Civil está dentro do gênero dos super-heróis, e sendo assim deveria funcionar para a maioria dos leitores respeitando a fórmula conhecida e esperada.

Dentro deste critério, alguém precisava ganhar e a outra parte perder. O herói triunfa sobre o mal de maneira maniqueísta.
O mal aqui representado pelo registro e por Tony Stark.

A desistência do Capitão foge destes critérios e para muita gente independente de outras racionalizações, dá um banho de água fria no final pois não cumpre o que prometeu. Isto em inglês é o pay-off.

Cada gênero tem suas regras e parâmetros, como o faroeste por exemplo, e não é fácil quebrar as regras e agradar a todos.

Eu acho a postura do Capitão razoável, mas não gosto do final, que acho pífio. Seria muito mais interessante ver o Capitão América como fugitivo ou prisioneiro. O símbolo dos valores americanos preso, seria algo interessante de se ler.

Mas é algo muito difícil de desenvolver dentro da maneira como os quadrinhos são publicados na Marvel, e no atual clima de HQ-Filme. O próprio Homem de Ferro, que assume a posição de pulha na série, não pode virar um vilão com seu filme prestes a estrear, não é mesmo?

Eu acho que uma dose de realismo nos super-heróis é necessária, mas sem perder o vínculo com o fato de que no fundo, são sujeitos de collant que saem na porrada com outras pessoas. Ou seja tem que haver a fantasia, o absurdo, e trabalhar bem o gênero.

Mas acho que a Guerra Civil valeu pela chacoalhada, para reciclar um pouco as coisas e criar nos leitores um pouco daquela sensação de que vai alcontecer algo diferente (mas é frustrante ver que no final dá na mesma).

Amalio disse...

Eu acho que o final foi condizente sim se levarmos em conta que o Capitão América é em essência um soldado e pensando como soldado, numa guerra contra o inimigo, baixas civis e destruição de propriedade são consequências aceitáveis e inerentes ao conflito. Mas quando o inimigo é seu amigo? E quando o inimigo é o seu próprio povo? Isso pode justificar a atitude do Capitão.

Na verdade a Lei de Registro é um pouco dúbia, pois dos dois lados existem argumentos convincentes. Ao aprová-la o governo cerseia a liberdade individual, ao ignorá-la deixa heróis inexperientes e irresponsáveis sem treinamento adequado. O ideal seria um meio-termo entre as duas partes, porque prender um herói simplesmente pela recusa em se registrar, esquecendo todo o passado de combate ao crime, é uma atitude bem extrema.

Zé Oliboni disse...

sabe uma coisa que eu achei interessante, Tony stark é, a todo momento, o vilão da história. Mas, no final, "ao vencedor as batatas". Ele ganha uma posição de prestígio dentro do Universo Marvel, guardando, como ele mesmo diz, a identidade dos amigos dele, e uma boa colocação editorial.

Como o Nasi apontou na resenha, ele vira uma espécie de garoto propaganda do que está por vir na editora.

Zé Geraldo F. Diniz disse...

Abandonei Guerra Civil no meio e essa foi a minha última tentativa de ler um título Marvel por muito tempo.

O material da DC também está um lixo, mas eu sempre tive maior afinidade com os personagens deles.

Mas acho que, de super-heróis, é melhor eu voltar e reler as histórias da DC do final da década de 60 e começo da década de 70. Essencialmente o período em que Carmine Infantino tinha as rédeas editoriais. Saudade da Supermoça desenhada por Bob Oskner, com roteiros de Mike Sekowski. Saudade de "As Aventuras de Diana", também do Sekowski ou da nova Turma Titã, com roteiros de Bob Haney e arte de Nick Cardy.

Deus me livre do lixo DC e Marvel atual. Do material atual, prefiro os mangás mesmo.

Zé Oliboni disse...

Cada vez mais eu ouço histórias de pessoas que só compram hoje em dia republicações de histórias clássicas. Acho interessante, uma alternativa para não abandonar de vez os quadrinhos. Mas, mesmo assim, gosto de pensar que o gênero não morreu e muitas vezes me surpreendo, tanto por encontrar histórias muito boas, como por ler histórias péssimas.

Marcílio Souza disse...

Eu respeito a opinião de todos, mas também tenho a minha própria.

Acho que ficaria muito dificil imaginar outro final para essa maxi-série. As edições 1 a 5 foram recheadas de revelações e atitudes "bombasticas" no universo marvel.

Um colega me falou, no momento em que a história transcorria, que achava que o final seria muito ruim, pelo tamanho de "Grandes Mudanças" que estava sendo feito.

Eu também penso que o final foi corerente com essa nova postura do universo marvel, mais madura e realista. Só tenho a lamentar que, depois de 6 edições alucinantes, o Millar tenha acabado a história em 3, 4 páginas, de uma maneira incrivelmente abrupta.

Vale também citar como o Joe Quesada desprezou tudo que foi feito com o Aranha na GC, simplesmente sem dar nenhuma explicação coerente e convincente (não teve peito para assumir a responsabilidade). É isso!

Cas disse...

Zé, apesar de ter lógica o que vc fala, ainda assim o final não deixa de ser pífio pelo modo que foi conduzido.

Acho que um ou outro lado ganhar a guerra é o de menos, o problema é a construção da história e em nenhum momento fomos levados a achar que o Capitão duvidava do que estava fazendo. Mas em um segundo, sem mais nem menos, o cara resolve que estava errado e se entrega? Que se dane todo mundo que ele lutou tanto pra salvar e proteger? na boa, não dá pra aceitar isso assim, essa mudança sem mais nem menos.

E infelizmente concordo com um dos caras acima, quase não consigo mais ler super-heróis, e isso é muito triste porque eu amo o gênero. Tem muito pouca coisa boa pra se ler hoje em dia em Heróis.

Cassius Medauar

Eduardo Nasi disse...

Zé, o lance é que boas histórias nos surpreendem por si só e pela sua qualidade, e fazem isso inúmeras vezes. Olha um Sandman ou mesmo um Demolidor do Bendis ou um Capitão América do Brubaker. Elas surpreendem na décima leitura.

Já Guerra Civil não surpreende muito nem na segunda leitura. É uma série que fez barulho, e bom barulho, puxando o tapete do leitor. Vai marcar sua época, mas não vai virar uma obra-prima. São duas coisas diferentes.

Guilherme Kroll disse...

Concordo contigo, Zé. Só que conduziria a trama para o Capitão perder e ser preso no final. Acho que a Marvel perdeu uma ótima oportunidade de fazer algo sensacional.

Sidney Gusman disse...

Zé, um herói que combate o crime desde a Segunda Guerra só "se liga" do que está causando depois de tanta pancadaria? Onde foi parar a decantada experiência do Capitão América?

Não engoli esse final. Sem chance.

Amalio disse...

Coitado do Capitas, justo no momento que ele tem um insight, todo mundo cai de pau no cara. O pior é que nem deram tempo do coitado se recuperar. R.I.P.

Zé Oliboni disse...

sidão, a maioria dos americanos aprovava essa retaliação violenta. Os pacifistas que surgiram depois do vietnã foram sufocados por uma maioria que queria ver o sangue correndo no Iraque depois do 09/11.

Elegeram e relegeram o Bush por ser belicista. Agora, de repente eles são o povo mais pacífico do mundo e querem o Bush fora e seus "garotos de volta"...

o capitão é o puro reflexo desse pensamento frágil americano em relação à violência.

Marcos disse...

Perfeito comentário Zé Olboni, vc disse tudo nesse último recado, dentro da coalisão dos super-heróis da Marvel com a realidade, a visão da decisão do Capitão no final de Guerra Civil é uma metáfora perfeita da política americana atual, queira ou não, os brasileiros leêm um produto tipicamente norte-americano, por mais que o roteirista tenha sido um escocês (Millar), que decidiu os rumos da minissérie a partir de uma decisão editorial do editor-chefe, Joe Quesada. Claro, valia uma ousadia a mais para transformar tudo em algo "crível", mas seguindo a atual simbiose do "bom mocismo" ianque, o final totalmente anti-clímax (um esperado banho de água fria) ficou perfeito para essa onda.