03 junho 2009

Ponto de Fuga: Wolverine e a cronologia




Quarta-feira é dia de coluna no UHQ e esta semana é a vez do Pop Balões invadir o espaço com o Ponto de Fuga.

No texto de hoje, eu e o Diego falamos um pouco do recorrente tema da cronologia nos quadrinhos de super-heróis. Essa questão que volta e meia vem à baila quando um personagem sofre grandes alterações e sempre é tema de discussões. AFinal, a cronologia é realmente boa para os quadrinhos?

Para ajudar a pensar sobre o tema pegamos o caso específico do Wolverine, que não só tem um histórico complicado, mas virou um fenômeno diferenciado da maior parte dos personagens.

Então, leia a coluna aqui e depois comente.

14 comentários:

Rafael disse...

Ótimo tema esse de cronologias.

Na minha opinião, a questão da cronologia do Wolverine é "apenas" o caso mais patologico de um problema cronico que assola os quadrinhos de supers. A "continuidade" das ações e as conssequencias que elas geram, geralmente espirram em outros titulos da mesma editora. Por isso a nescessidade de tantas Crises Secretas e mega sagas para zerar cronologias e re-iniciar numerações de titulos.

Do outro lado, temos o exemplo dos personagens da Bonneli. Zagor, Tex, Dylan Dog. Poucas vezes se encontram, poucas vezes se esbarram. E poucas vezes uma história terá importancia crucial em outra subsequente. Em alguns casos, é verdade, re-aparece um vilão, um amor de outrora, ou mesmo um filho vem a nascer. Mas o Chico ainda é o mesmo. Kit Carson não ficou mais grisalho. E Grouxo nunca melhorou substancialmente a sua pontaria de arremesso de pistola.

Não quero fazer aqui o papel do defensor-dos-fumettis-algoz-dos-comics, mesmo porque eu realmente não sou dessa opinião e acho que isso não cabe nessa discução. Mas acredito que personagens como Wolverine, que indiscutivelmente é um ótimo personagem e com muito potencial, poderia ser melhor aproveitado se algumas de suas histórias fossem fechas em si, sem espirrar em ninguem. Ou pelo menos se houvesse um Elseword e um publico que o aceitasse numa boa, sem reclamar que a "cronologia não tem nada a ver".

Guilherme Kroll disse...

Pior é que a Marvel desperdiça boas idéias, como essa dele na Segunda Guerra Mundial, com histórias fracas.

Marcelo disse...

Excelente material e levantamento feito por todos esses anos, os quais acompanhei muitas das aventuras citadas, desde o tempo de Almanaque Marvel da RGE, Superaventurasmarvel, X-Men e Wolverine da Abril até a Panini atual.
Com esse rolo cronológico, seria (comicamente) mais fácil criar, numa revista própria, um crossover do baixinho com o Vigia.
Nela apresentariam os famosos "o que aconteceria se...", Wolverine estivesse em Hiroshima durante a explosão nuclear, ou se lutasse no exército canadense na primeira guerra mundial, e deixassem a personagem continuar em suas histórias não tão descaracterizada e "descronologizada".

Victor disse...

"Represa cronológica" é expressão de uma felicidade tremenda, sério mesmo. Muito bom!

Cronologia, assim como tie-ins e tie-outs, foram uma sacada genial há quarenta ou trinta anos atrás. Graças à batuta de Stan Lee.

Nas décadas de 60 e 70, a Marvel foi criativa ao não só construir gradualmente uma cronologia para seus personagens, mas também ao fazer eles se relacionarem "em tempo real" (o super-banana machucava o pé na sua revista? então na edição do mesmo mês da revista da Liga dos Vingadores ele aparecia com um curativo no dedão).

Só que isso não podia durar para sempre, pela simples razão que quatro ou três décadas de histórias mensais com cronologia torna essas idéias, antes geniais, algo estupidamente limitante e aborrecido de se ler.

O que era novidade ficou chato. O que era um sinal de criatividade acabou, após décadas de uso e abuso, revelando suas inevitáveis limitações, entre as quais o cerceamento das possibilidades narrativas.

E, para isso, contribui a turma de xiitas quatro-olhos que, por décadas, escreviam cartas para a redação da Marvel reclamando de incongruências na cronologia. Aquelas crianças que compravam o gibi com a mesada viraram, no decorrer dos anos, adultos "zumbiformes" que, ao invés de gritar "miooolos", gritam "cronologiiiia". Stan Lee deu leite com raios gama pra molecada que comprava suas revistas, e criou os monstros de hoje em dia.

Tudo daria certo, se nessas quatro ou três décadas,fosse o mesmo escritor a redigir a cronologia, sabendo que teria trinta ou quarenta anos para narrar a vida do personagem, interpolando fatos que só anos após teriam influência na história. Mas isso é pura utopia. Num mercado onde os autores ficam por poucos arcos, e onde o que importa é vender, mesmo que seja porcaria as possibilidades narrativas vão se exaurindo.

Alessandro disse...

O mercado é que faz isso acontecer e a maioria das pessoas sustenta esse mercado gosta do que lê.

Assim, a minoria que não gosta sofre.

Natanael Floripes disse...

Alessandro,
você está completamente errado.
O que acontece é que, pouco a pouco, a maioria vai ficando de saco cheio dessa história de cronologia e eventos interligados, que, ainda por cima, são reescritos um ou dois anos depois, e desiste de ler quadrinhos de super-heróis.
Essa é uma (dentre outras, como roteiros fracos, arte ruim, existência de alternativas de entretenimento etc) para o fato de que, ano a ano, as vendas de revistas de super-heróis cairem sem parar. A realidade é que a maioria desiste, a minoria de fanáticos é que fica, comprando todas as revistas que a editora publica... Como os fanáticos não são tantos assim e eles vão morrendo aos poucos, as vendas de revistas em quadrinhos nos Estados Unidos vão se tornando a coisa patética que elas são.... A maioria das revistas da Marvel e DC não vende 10.000 exemplares por mês (e custa cada vez mais caro, para tentar compensar as baixíssimas tiragens).

Amalio Damas disse...

Bela matéria como sempre. Eu acredito que o caminho é a simplificação das histórias. O que não é o caso do Wolverine, que desde a maldita invenção dos implantes de memória, tudo é possível.

Parece que a Marvel está tentando fazer isso com o Homem-Aranha, trazendo-o novamente ao que ele tinha sido no final da década de 70 e início da década 80.

Está na hora das editoras de super-heróis começarem a se mexer para trazer novos leitores de verdade para os quadrinhos e parar de agradar velhos leitores como eu. É preciso separar os públicos porque senão daqui há pouco, as tramas terão que agradar a terceira idade.

Ricardo S. Tayra disse...

Oi pessoal. Desculpa usar o espaço aqui, mas percebi que site do Universo HQ não está entrando, nem no domínio .com nem no .com.br . Não sei se é só comigo.

Abs!

Sandro disse...

Eu vejo a continuidade, ou cronologia como o fator identificador dos comics americanos. Mas depois de décadas, elas me parecem atender mais às necessidades das editoras em manter seus consumidores fieis e ansiosos pelo proximo mês do que dos leitores sempre a procura de uma boa história.

Depois de quase 20 anos (puxa, tudo isso) lendo quadrinhos percebo que a leitura mensal de um arco é bastante insatisfatória. Vale muito mais a pena esperar e buscar pelos arcos realmente merecedores de atençao, ja que estes fatalmente retornam na forma de encadernados.

Só é uma pena que esse sucesso de determinados arcos seja medido justamente pelos leitores mensais.

Ricardo Soathman disse...

Olá Galera.

Aparentemente o problema técnico está resolvido!

Ok, sobre a questão da cronologia, eu tenho uma teoria.

Acho que a cronologia acaba se sustentando, apenas para dar continuidade a numeração (fato que demanda um certo orgulho as editoras), mas que na prática, acaba sendo uma coisa, na melhor das hipóteses, incomoda.

Eu acredito em cronologia como uma "sugestão"... Exemplificando... Acho que ao se falar de inicio de cronologia para um personagem como Batman, imediatamente vem a mente o Ano Um de Miller e Mazucchelli.

Essa, é, na verdade a minha teoria sobre cronologia... Dar uma sugestão, mas não tornar a coisa muito "canônica", senão, daqui a pouco teremos aberrações opiativas, como as críticas a nova abordagem de Abrams, sobre a franquia Star Trek.

Eu imagino que um personagem deva ter "obrigações cronológicas" dentro de um arco. Isso sim, me parece indispensável. Mas, daí a obrigar um personagem a adequar suas aventuras, a acontecimentos, em sei lá, 60 anos de história, acaba sendo complicado.

Cronologias, na minha opinião, deveriam acabar, ao fim de cada passagem de time criativo. E algum editor, já que as grandes editoras adoram lançar livros que determinam a ordem dos acontecimentos, deveria encontrar e catalogar as melhores histórias já escritas ao longo dos anos e sugerir uma cronologia do personagem aos leitores.

Batman, poderia começar no ano um, e terminar em The Dark Kight Return... E neste recheio, vamos tentar explorar o personagem, sem muita "obrigação" cronológica.

É isso, um abraço.

Ricardo Soathman

Diego Figueira disse...

Sandro, concordo com o que você disse sobre a cronologia ser um elemento essencial dos quadrinhos de super-heróis. Inclusive essa é uma das idéias que defendi no meu mestrado.

Quanto a insatisfação em acompanhar um arco mensalmente, percebe que cada vez mais pessoas pensam assim e essa pode vir a ser uma questão séria a ser enfrentada pelas editoras.

No entanto, a venda mensal ainda é muito importante economicamente para uma editora, e eu no momento não vejo a possibilidade de elas lançarem um encadernado de uma história que não tenha passado pelas revistas mensais de 22 páginas.

Abraço!

Diego Figueira disse...

Ricardo, também acho que a cronologia tem tudo a ver com o colecionismo de HQs, portanto é coisa de fã mesmo e pode desagradar outros perfis de leitor.

JJ Marreiro disse...

O Wolverine e os X-men tornaram-se inascessíveis em termos de compreensão para o leitor ocasional. E a inesistência do leitor ocasional enfraquece as possibilidades de venda de uma publicação...Com isso o editor para a atender apenas aos experts direcionando o material para um tipo específico de leitor...Assim as vendas diminuem, as revistas ficam mais caras e as histórias ficam cada vez mais complexas.
Arcos fechados e histórias fechadas afugentam menos o leitor ocasional que vai preferir essas opções (que aparecem nos formatos de luxo e encadernados) em detrimento da revista de linha...que hipoteticamente deveria ser barata, acessível e com histórias compreensíveis.

O Wolverine é um personagem muito bom que é muito bem utilizado quando encontra escritores com cérebro:)

Ricardo Soathman disse...

Olá Diego;

É, e eu acho que quem acaba meio que pagando o preço é mesmo o artista da vez. Claramente, quanto mais liberdade criativa o cara tiver, em teoria, melhor o trabalho. Excetuando-se talvez o Grant Morrison... LOL. Que parece, descobriu a pólvora ao inverter a dinâmica, da dula dinâmica... LOL²

Enfim, cronologia para mim, só pode ser levada em consideração, como mera sugestão, caso contrário vira canônico-trek!

Abraço, e excelente coluna.

Ricardo Soathman